quinta-feira, agosto 19, 2010

O guardador de rebanhos

V
(...)
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
(...)
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendome,
Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
(...)
E por isso eu obedeçolhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeçolhe
a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamolhe
luar e sol e flores e árvores e montes,
E amoo
sem pensar nele,
E pensoo
vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora. (p. 3941)


VI
Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amarnosá
fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E darnosá
verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!... (p. 42)

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