terça-feira, novembro 30, 2010

O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto.
Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam
mais O cravo brigou com a rosa . A explicação da professora do filho
de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a
rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra
"o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz
/e a rosa ficou encantada".

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da
Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz
parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas
recolhidos no folclore brasileiro?


É Villa Lobos, cacete!


Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê . Na versão da
minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com
a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A
palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina
Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com
uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.


Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar
nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê ? Villa Lobos de novo.
Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor
Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.


Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a
música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem
entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados
para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém
mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o
sentido da desigualdade social entre os homens.


Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e
não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da
Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos
setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de
fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a
alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta
e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do
mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha
louca, diria o velho.



Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém
mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os
paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice.
O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade,
da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem
duplo sentido), ofensa a bicha alguma.


Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou
leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical . O crioulo
- vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser
chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo
total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais
evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do
quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho
do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos
preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido
como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão
- é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser
chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca
não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.


Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o
Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa
tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também
gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.


O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e
2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés
de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no
olho do cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de
Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens , do
velho Bach.


Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais.
O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova,
aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro
funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para
sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor
idade".


Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde.
Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.

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